A VINGANÇA

Preste atenção! Preste sempre atenção!
Esta é uma história forte. Uma história de vingança.
Sobre o que é capaz um homem que perde tudo e não mede conseqüências para os seus atos de fúria. Sobre a nossa natureza, e sobre como não sabemos até onde vai o nosso limite.


Ele foi encontrado debaixo de uma árvore, perto da praia, a alguns metros da velha estrada.
Descalço, com a roupa toda suja de sangue e jogado, como se esperasse a própria morte.
Quem o encontrou foi um velho ferreiro que fez uma parada no caminho para mijar.
Sorte grande, pois o velho tinha bom coração e isso era o inverso do que ele havia passado nas últimas horas.

O velho se aproximou dele e vendo todas as marcas da violência perguntou:
- hey, você quer uma ajuda?
- posso te dar uma carona até a próxima cidade, lá tem um hospital.
Ele estava contra o Sol e por isso mal conseguia abrir os olhos.
Mas disse que sim e agradeceu a boa vontade do velho.

Ele não conseguia caminhar sozinho, então o velho o ajudou a chegar até o carro.

O carro era uma lata velha, cheio de sujeira e papéis jogados dentro.
Tinha coisas penduradas no espelho retrovisor e o rádio tocava mais estática do que música.
Eles se acomodaram nos assentos e partiram.

O velho logo alimenta sua curiosidade e pergunta:
- Mas o que aconteceu com você, pra estar todo ferrado desse jeito?
Ele olha pela janela, vê as árvores passando e então começa a contar.

Eu e minha mulher resolvemos tirar umas férias.
Pegamos as crianças, tínhamos dois filhos, um garoto de oito e uma menina de cinco e alugamos uma casa na praia.
Chegamos cedo e tivemos um dia muito agradável no sábado.
À noite, deixamos as crianças dormindo e fomos para a boate. Fazia anos que não íamos a uma.
Estava tudo bem, estávamos um pouco bêbados e dançando quando um cara chega do nada e começa a dançar com a minha esposa.
Ela se esquivou e eu empurrei o cara. Continuamos dançando.
Mais tarde o cara veio e já chegou agarrando ela. Quando fui separar, levei um soco no estômago de um outro, e ainda um terceiro me empurrou.
“Não vai dividir o filé?”, ele me disse e saiu com ar de superioridade quando a dança acabou.
Peguei minha mulher e voltamos para a casa.
No dia seguinte, na hora do almoço, os mesmos caras apareceram no restaurante.
“Hmmm, não sabia que tinha uma menina tão bonita aqui!” E se aproximou da minha filha.
Eu levantei e disse que era melhor ele nos deixar em paz, que ele não sabia com quem estava mexendo.


Realmente, eles não sabiam com quem estavam mexendo.
Jack era ex-policial rodoviário e sabia atirar muito bem, quando preciso.
Além disso, seu pai era açougueiro, e ele tinha tudo na memória, sobre quais facas usar.


À noite, eu acordo no meio da madrugada com um soco na cara.
Eu não entendo nada.
Quando me viro eu vejo minha mulher e meus dois filhos amarrados e com fitas na boca.
Cada um em um canto do quarto.
Na hora eu não pensei em nada, ao mesmo tempo eu estava pensando em tudo.
O Canalha Mestre e seus dois capangas estavam lá, apontando suas armas para mim e dando risada.
Ele chegou bem perto de mim e disse: “E agora doutor? Eu vou saber com quem estou mexendo? Hahaahhaha!”.
Eu levantei dando um soco naquele cretino, um gancho! Mortal Kombat!
Na hora os capangas apontaram suas armas para os meus dois filhos.
Minha mulher começou a chorar.
Eu disse: “Tudo bem. Tudo bem. O que vocês querem?”.
E o Canalha Mestre me deu uma coronhada na cabeça.
Eu desmaiei.


Lá fora o tempo estava fechando. Dava pra ver as nuvens negras se amontoando. No rádio, em meio a ruídos ouvia-se a voz de John Lennon cantando Imagine.

Acordei alguns minutos depois. E dessa vez também estava amarrado e amordaçado.
CM chegou pra mim e disse: “Já vi que você é metido a durão. Então vamos ver se você agüenta isso! Seu merda!”.
Ele me mostrou uma arma, estava vazia. Ele colocou apenas uma bala dentro, e girou a roleta.
“Quem você quer que seja o primeiro?”.
“A gostosona aqui?” E apontou pra minha esposa.
Ela começou a gritar com a boca tampada.
“Calma docinho! Calma! Eu só to brincando” ele disse.
Os capangas deram risada.
“Você vai ser útil antes... hehehehehee”.
“Pega o menino! Pega o menino!” disse o idiota nº 1.
CM foi até o canto onde estava o garoto. Girou a roleta, apontou pra cabeça dele e TÉC.
Não saiu nenhuma bala.
“Vamos dar uma segunda chance para os deuses!” ele disse.
Apontou denovo e...


Jack não se conteve e começou a soluçar.
O velho entendeu e ofereceu uma garrafa de água que estava dentro do porta-luvas.

Uma segunda chance? Filho da puta!
Depois ele me disse que os deuses sempre têm seis chances!


Jack bebeu a água.
O velho parecia não acreditar.

Minha mulher estava em choque e eu não conseguia olhar pra ela.
Me sentia um panaca não podendo fazer nada.
Minha filha, eles pegaram ela e levaram para um outro cômodo da casa.


- Mas porque eles fizeram isso?
- Você já tinha visto eles antes daquela boate?
O velho perguntou, enquanto dava passagem para um carro importado que estava colando.
Jack disse que não, que também não entendia.
Ele tomou outro gole d’água, e continuou contando.

Então, o Canalha Mestre veio e me disse:
“Vai me deixar dançar com a madame agora?”.
Ele a pegou e amarrou os braços dela por trás da coluna.
Ela balançava a cabeça dizendo que NÂO.
Tentei levantar, mas o idiota nº 2 me deu um soco.
Ele puxou a calça do pijama dela e depois rasgou a calcinha.
“Hmmm, olha que belezinha temos aqui!” ele disse.
Depois ele abaixou o zíper da calça e a estuprou na minha frente.


Começou a chover, e o pára-brisa do carro fazia um barulho irritante.
No rádio, quase não dava pra distinguir a execução de Perfect Day.

Gozou na cara dela, e deu risada.
“E aí rapazes, vão querer um pedacinho?”.
E foram os dois capangas acabar com o que sobrou da minha mulher.
Ela já nem gritava mais.
E eu tentava olhar para o outro lado, mas o CM me forçava a ver.
Depois eles a deixaram jogada lá e trouxeram minha filha.
“To a fim de experimentar essa aqui agora. O que você acha?” CM disse.
“Hã?”.
“Quer ver como ela é bonitinha?”.
“Eu vou deixar você decidir então. Vai ser o que você preferir, certo?”.
“Ou VOCÊ mata ela, ou a gente a enche de vida! Hahahahaha”.
“É você que manda, doutor!”.
“Então, o que você prefere?”.
“Matar?”.
Eu acenei que sim.
A morte era o melhor pra qualquer um ali.
Prenderam meus dedos e só deixaram o indicador solto.
Colocaram minha filha de frente pra mim e um dos capangas ficou segurando a arma.
Tiraram a fita da boca da minha filha.
“Vai! Puxa o gatilho, idiota!” CM disse.
Eu cheguei com meu dedo perto.
Minha filha disse: “Papai?”.
Eu não consegui apertar.
CM passou a mão nas pernas dela e lambeu seu rosto.
“Eu vou gostar disso, doutor!”.
Ela estava chorando, quando eu a matei.
Minha mulher estava chorando, quando eu matei nossa filhinha.
Eu estava chorando, quando tudo que eu tinha foi tirado de mim.


Eles chegaram à cidade.
Uma rádio pirata invadiu o som do carro, transformando Bob Dylan em Roberto Carlos.
Jack deu uma pausa em sua história.
O velho parecia inconformado com o que estava ouvindo.

Eles chegaram ao hospital.
Jack estava com o braço quebrado e vários arranhões e marcas de queimadura pelo corpo.
Ele teve de passar a noite no hospital.

No dia seguinte, o velho apareceu para uma visita.
Ele disse para Jack que isso não podia ficar assim.
Jack concordou, e disse que já estava preparando uma vingança.
Então ele continuou com a sua história.

Depois que eu puxei aquele gatilho e vi o pequeno corpo da minha filha ser jogado num canto, quer dizer, tudo acabou pra mim. Nada mais importava.
CM e seus capangas despejaram gasolina pelo cômodo, atearam fogo e saíram trancando a porta.
“Você tem um último desejo? Hahahaha” CM ainda me disse. E saiu.
“Hasta la vista...” disse um dos capangas.


O que o Canalha Mestre não imagina é que Jack realmente tem um último desejo. Jack vai fazer um estrago. Vai fazer este crime parecer pequeno.

O fogo começou a se aproximar da minha mulher e eu tentava me desprender.
Ela começou a queimar e mesmo com a boca tapada dava pra ouvir os seus gritos.
Quando o fogo se aproximou de mim e começou a queimar o meu braço eu consegui me soltar.
Me levantei e fui cambaleando até ela, mas era impossível chegar mais perto.
Fui até a porta, mas estava trancada. Me joguei em cima dela, mas não consegui abrir.
Então minha única saída foi pular da janela, e eu estava no andar de cima.
Cai no chão e senti meu braço quebrando.
Quando me levantei, uma parte da casa explodiu.
Com a explosão, eu caí denovo.
E depois não sei por quanto tempo eu andei, nem pra que lado.
Acordei ontem, e vi você mijando atrás da árvore.


O velho então diz que vai ajudar Jack nessa sua vingança.
Jack vira um hóspede do velho, enquanto se recupera de suas lesões.

Seis meses se passaram e eles estão prontos para dar o troco.
Cada dia, dos últimos seis meses de Jack, ele acordou pensando nisso.
Primeiro foi se recuperando e melhorando seu físico.
Depois foi o teste com todo tipo de arma que ele pôde encontrar.
De facas à metralhadora, de drogas paralisantes à moto-serra.
Depois foi revisitando os locais da tragédia para alimentar seu ódio.
E por último, foi saber passo-a-passo onde o Canalha e seus capangas se escondem.

Jack e o velho se vestem de preto.
Eles entram no carro, com o porta-malas lotado de armas e coisas para tortura.
O relógio marca exato 11:54 da noite.

O velho acelera o carro, e eles partem para a noite mais negra.
- Já servi no exército, mas nunca vi sentido em algo assim antes.
O velho disse.

Jack está concentrado.
“Matar?”.
“Não vai dividir o filé?”.
“Já vi que você é metido a durão”.
“Seu merda!“.
“A gostosona aqui?”.
“Matar?”.
“Vamos dar uma segunda chance para os deuses!”.
“Hmmm, olha que belezinha temos aqui!”.
“É você que manda, doutor!”.
“Matar?”.
“Hasta la vista...”
“Matar?”.


Jack olha pela janela, e vê as árvores passando.
‘Curva Fechada’ indica uma placa. Eles estão próximos.

“E agora doutor? Eu vou saber com quem estou mexendo? Hahaahhaha!”.
“Eu vou saber com quem estou mexendo?”.
“Vai ser o que você preferir, certo?”.
“Certo?”.
“...com quem estou mexendo?”.
“Hahaahhaha!”.

Começa uma explosão de fogos de artifício.
O velho fica entretido. Jack não.
“Matar?”.“Hahaahhaha!”.


No rádio não há música.
“E agora doutor?”.

Nenhum dos dois vê o caminhão que está ultrapassando um outro e vêm na direção contrária.

3 comentários:

Layana Lossë disse...

ó ele aí, ó!
nem quero ler, senão vai me dar raiva de novo!

ah, então... é q eu assino o feed do teu blog, aí todas as postagens aparecem no google reader, mesmo quando você apaga ;)

então, aquela foto fui eu q tirei :)
é a Ma, vc lembra dela? ela tava lá no niver da Boo no sítio.

(por falar nisso, a Boo e a Ju tão no RJ e ontem a gente ficou vendo o vídeo dos Jokers lá do sitio e vc tava jogando sinuca!)

Layana Lossë disse...

HAHAHAHAHAH

mas no video a gente ouve claramente um grito histérico de mulher. ou seja: ALGUÉM se assustou, já valeu!

muahahahahaha

Lelê Aracil disse...

Ahh!!
Meu Deus! que ódio! Ele tinha que tê-los matado!
haha
Gostei muito